Empreendedores discutem estratégias para fortalecer negócios

Começar um empreendimento requer uma grande dose de coragem. Muito em função do passo que pode levar a dificuldades financeiras e até familiares, dependendo do caminho seguido e do planejamento dos riscos. Artistas plásticos, profissionais da área da educação, da área de tecnologia em segurança, quilombolas, militantes da cultura, praticantes de religiões de matriz africana, profissionais da área de alimentos, da área editorial, pequenos proprietários rurais, quase todos os participantes do seminário do projeto Brasil Afroempreendedor do Rio Grande do Sul começaram seus negócios com recursos próprios. O seminário encerra nesta sexta, em Porto Alegre.

A manhã de sexta foi dedicada à discussão sobre Organização dos Negócios, Fontes de fomento e Financiamento. Durante os relatos, poucos empreendedores afirmaram ter ido atrás de financiamento e, quando foram, as dificuldades fizeram muitos desistir. Até aí, a história se confunde com a de milhões de empreendedores. Mas mudam quando a questão da identidade se destaca, quando homens e mulheres negros e negras voltam-se para sua história e cultura e avaliam suas possibilidades de negócios.

“Não podemos perder nossa identidade, temos de estar atentos ao que somos, de onde viemos, para onde queremos ir”, diz Sheila Rodrigues, proprietária da empresa Assessoria e Suporte em Segurança do Trabalho (ASST), onde desenvolve atividades de consultoria em segurança. Sheila começou o negócio com recursos da rescisão do último emprego. Hoje, quando não pode sozinha, associa-se a outras empresas e participa de concorrências para prestação de serviços a empreendimentos de grande porte. Sheila também participa de uma iniciativa do SEBRAE financiada pela Petrobras que envolve 150 empresas na cadeia do petróleo e gás. “É a menor empresa entre as participantes”, afirma. Mas isso não a desanima. “Nesses casos, precisamos ser mais criativos do que outros empreendedores, porque as dificuldades não são poucas, e têm a ver com a cor da pele, sim.”

Os depoimentos se sucederam nesse sentido. O empreendedor José Antonio Barão, pequeno proprietário rural em Pinheiro Machado, deparou-se com um gerente de banco que considerou insuficiente sua declaração de Imposto de Renda para conceder um financiamento, mesmo tendo uma propriedade de bom porte e com quase 200 cabeças de gado. “Ele nem quis ver minha propriedade”, diz. José Antonio, que também é babalorixá, acredita que as dificuldades para um empreendedor negro ou negra são maiores do que o normal. Mas também observa que é preciso buscar saídas na formação e capacitação para construir alternativas de sucesso em seu ramo de negócio.

Quilombolas

De Nova Palma, pequeno município situado a 50 quilômetros de Santa Maria, veio a representação da Associação de Remanescentes de Quilombo Vovó Isabel. Na localidade, vivem em torno de 200 pessoas de 60 famílias. Sem alternativa de atividade produtiva, a não ser a prestação de serviços para a cidade, para as fazendas locais e uma ou outra plantação, a comunidade foi beneficiada com recursos de um programa de governo para a construção de uma padaria e a aquisição de equipamentos. “Só duas pessoas sabem como se faz pão, e já vendem para algumas famílias da comunidade e dos arredores”, afirma Adelaine Santos Alves, moradora da comunidade. A comunidade é muito pobre, segundo Adelaine, e a padaria é uma alternativa de emprego para pelo menos 12 mulheres que estão envolvidas no projeto. A participação no seminário foi estimulada pela Secretaria de Desenvolvimento Rural do Estado do Rio Grande do Sul, parceira do projeto no estado.

Clubes negros

No Rio Grande do Sul, a força dos clubes negros é uma marca das populações afrodescendentes. Os clubes negros são considerados as primeiras iniciativas urbanas de empreendimentos afro-brasileiros no estado. O presidente do Coletivo de Clubes Negros do Rio Grande do Sul, Cesar Augusto da Silveira, presente ao seminário, vê na gestão e na continuidade das políticas culturais a saída para a sobrevivência dos clubes como instituições voltadas para a cultura e a preservação da memória. “Temos de apostar em eventos, mas também em projetos para o financiamento de nossas atividades”, afirma.

Parceria com MEC

Uma grande novidade neste segundo dia foi a presença de Thiago Thobias, diretor do Ministério da Educação na área de Políticas de Educação no Campo Indígena e Étnico-Racial. O diretor acenou com a possibilidade de parceria entre o projeto Brasil Afroempreendedor e o Pronatec, um dos maiores programas de formação e capacitação do ministério em curso no País. “Quem sabe não construímos um grande banco de dados com a rede de empreendedores do projeto para ajudar no processo de formação dos participantes do Pronatec?” A iniciativa será discutida entre a direção do projeto e o ministério em breve.

Ainda pela manhã, foram retomadas as discussões sobre elaboração dos planos de negócios pelos empreendedores, com a elaboração dos planos e respostas às dúvidas dos empreendedores. À tarde será reservada para a palestra sobre Administração e controle financeiro do negócio, Gestão de tempo e Gestão de Recursos, ministrada pelo Consultor do Sebrae/RS, Geraldo Scheffel, e para firmar o compromisso dos empreendedores com o projeto.

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3 comentários, add yours.

sebastiao Gimes Araujo

Sou comerciante na área de reciclagem de matérias ferroso e não não ferroso, como plástico, papelão e outro a 15 anos com recurso próprio. Pois essas dificuldades que foram comentadas são as mesma que tenho.

ROSANE FRANCISCA NUNES DA SILVA

Faço minha as palavras de Sebastião o grande problema do afro empreendedorismo é exatamente este o FINANCEIRO exatamente pela falta de politicas publicas que nos contemple , se faz necessário que este empreendedorismo seja em estilo de encubadora como já existe aqui em grande quantidade para os não negros ,onde eles recebem infraestrutura com assessoria financeira e administrativa por 5 anos até atingir um valor x de faturamento mensal quando então deixam a encubadora para ir p/ a sua sede própria .
espero que os empreendedores negros também tenham esta assessoria para poderem firmar seu comercio e decolarem em seu empreendedorismo .

claudia dos santos

Sim essa falta de confiança por parte das Instituição que pode facilitar nossas pequenos empreendimentos.Até do Governos,é muito dificio crecer.

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