ONU Estabelece esta Década como Década dos Afrodescendentes

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Ao longo da nossa história, o povo africano e seus descendentes contribuíram significativamente para o desenvolvimento da cultura brasileira, em vários aspectos. Entretanto, sempre houve, por parte da sociedade do nosso país, o não reconhecimento e a discriminação aberta e velada dessa contribuição tão importante.

A ausência da história da cultura dos povos africanos e de seus descendentes na produção historiográfica e no estudo das demais ciências humanas no Brasil ainda é uma herança do passado escravista da sociedade brasileira.

Vivemos num país com a segunda maior população negra do mundo (apenas a Nigéria possui maior população negra) e ainda não há, em todo o Brasil, um Programa de Formação Continuada em Serviço com o intuito de explicitar tais questões, estudar a História da Cultura Afro-Brasileira e refletir sobre estes assuntos.

Fora a iniciativa (muitas vezes a ferro e fogo) de alguns professores em cursos de Pós-graduação, ao longo da história, não há seriedade e consistência no tratamento dessa temática na maioria das multinacionais e demais empresas brasileiras, restando tal análise e reflexão somente em bancos acadêmicos de universidades públicas e privadas.

Quem duvidar da sentença de Mariza Correa para quem “antes de ser pensada em termos de cultura, ou em termos econômicos, a nação foi pensada em termos de raça” (Corrêa, 1998: 53), basta ir aos clássicos da nossa intelectualidade para se constatar que o pensamento social, no Brasil, sempre foi racial.

Parafraseando Eliane Cavalleiro (2000), nos questionamos: “De quanto tempo e dedicação precisaremos para fazer chegar a História e Cultura Afro-Brasileira – incorporando novas discussões teóricas e metodológicas, através de disciplinas obrigatórias – às licenciaturas e Institutos Superiores de Educação?

Torna-se importante refletirmos sobre tais questões e adentrarmos num campo ainda mais fragilizado: a questão de gênero. A não valorização da mulher negra ao longo dos tempos nos mostra um cenário de “lutas diárias”, pelo que necessita de modificações urgentes.

Sabe-se que, uma das mais importantes transformações sociais ocorridas no Brasil, desde os anos de 1970, foi o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho. Contudo, esta inserção tem-se caracterizado por clara desvantagem em relação aos homens em termos de rendimentos e de valorização no trabalho, além de que “mulheres negras” empresárias ou ocupando cargos de chefia são situações raras, quase inexistentes.

Apesar da igualdade formal, presente na lei, é no cotidiano que se explicitam práticas discriminatórias que atentam contra o direito a igualdade estabelecido na Constituição Federal.

Portanto, o grande desafio dos movimentos sociais e dos poderes públicos, comprometidos com a igualdade racial e a justiça social, é contribuir para que se eliminem as desigualdades entre homens e mulheres e se fortaleça a autonomia feminina nos diferentes espaços da vida cotidiana. E, como proporcionar uma reflexão crítica sobre tais assuntos? Fazendo com que todos reflitam e debatam sobre estes temas, por meio de uma Política Pública ou um Programa de Qualificação Profissional e de Formação de Afroemepreendedores que inclua nos conteúdos e reflexões específicas dos cursos de aperfeiçoamento profissional temas relevantes como racismo e desigualdade entre homens e mulheres.

Em geral, nem nos processos de socialização, nem nas formações acadêmicas e profissionais, as pessoas têm a oportunidade de construir uma compreensão da questão racial e de gênero que fosse além do senso comum, embalado no mito da democracia racial e dos direitos genéricos da igualdade social.

Desta forma, é importante que haja uma capacitação também voltada para esta área, ampliando os conhecimentos para questões referentes à promoção da igualdade de gênero e raça, além de ampliar para questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável de toda população do planeta neste novo milênio.

Assim, haverá uma possibilidade maior de enfrentarmos os preconceitos acerca destas questões e de refletirmos sobre as novas facetas e orientações para um desenvolvimento global sustentável, uma vez que um está inter-relacionado com o outro, já que a era em que vivemos sugere uma maior humanização e união entre os povos.

Analisando sobre tais questões, é importante considerar, ainda, as questões elencadas na 15ª. Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que teve como principal resultado o “Acordo de Copenhague”, elaborado por um alguns países e formalmente aceito pela ONU. Sem aprovação unânime, o acordo teve como anexo uma lista de países contrários a ele. A iniciativa de “tomar nota” foi a saída encontrada para que o documento tivesse status legal e fosse suficiente e funcional, sem que fosse necessária a aprovação pela maioria das partes. Infelizmente, na Conferência da ONU em Copenhague, houve a discussão mais da questão econômica das nações ricas e emergentes do que uma discussão em prol da questão climática, que pode devastar nosso planeta. Sabe-se que a questão climática ultrapassa a fronteira ambiental. É uma questão de desenvolvimento humano, de justiça social e de equidade de gênero e raça.

Por tudo isto, o Instituto Adolpho Bauer, juntamente com a ANCEABRA – Associação Nacional de Empresários e Empreendedores Afro-Brasileiros e com o Sistema SEBRAE, querem desenvolver uma amplo processo de dialogo sobre o afroempreendedorismo que, muitas vezes, violentarão “verdades” que ainda insistem em enganar as pessoas, com a falácia de que “já vivemos num mundo de igualdade, sem distinção de raça, de igualdade entre homens e mulheres e sem discriminações e; que não há porque se preocupar tanto com a questão climática e com o desenvolvimento sustentável do planeta”.

Com este Programa de Formação de Afro-Empreendedores esperamos contribuir para a promoção de ações afirmativas, que coíbam a desigualdade, a injustiça e a discriminação e possibilitem o reconhecimento e a valorização da história, da cultura e da identidade dos africanos e afrodescendentes em todo território brasileiro, além de possibilitar uma reflexão sobre a questão de gênero e sobre a concepção de que mundo nós queremos deixar para as próximas gerações.

É preciso que haja a tradução daquelas “revelações” da história em novos conteúdos, rearticular propostas e envolver as comunidades empresariais neste contexto, não só a comunidade acadêmica, pois muitos profissionais já saíram dos “bancos escolares” e, mesmo com cursos de aperfeiçoamento profissional, não estão refletindo e interagindo sobre tais questões.

Como consequência, estaremos produzindo a “descolonização das mentalidades” de técnicos e gestores públicos e privados para tentarmos avançar para alcançar um nível mais elevado de consciência sócio-racial em nosso país e sociedade. Sobretudo conteúdos como os que teremos oportunidade de estudar e discutir nesta proposta, relativos à História da África e à participação do negro na formação da economia e da sociedade brasileira.

Questões sobre gênero, sobre o clima do planeta, o mundo global e o desenvolvimento sustentável, entre outros, permitirão um desenvolvimento consciente e a desnaturalização do racialismo (concepção de que raça é uma coisa importante) e das desigualdades entre homens e mulheres – elementos marcantes em nossa formação econômica, social e histórica.

Ainda analisando sobre a questão do racismo, é mister que analisemos algumas questões do Projeto Genoma Humano – como os mais sensatos em todos os tempos e lugares – ele afirma que só existe a raça humana, as diferenças genéticas entre um africano e um escandinavo podem ser menores do que entre dois africanos ou dois escandinavos. Partindo deste pressuposto, o conceito de raça como sendo algo construído nas relações sociais ainda pode ser útil em algumas questões, mas deveria estar com seus dias contados, como proclamam Paul Gilroy e Kwame Appiah.

Tornar-se-á necessário, então, fazer justiça ao Movimento Negro e aos poucos, mas resolutos que (mesmo não sendo negros) assumem uma Consciência Negra e que vem há tempos segurando essa bandeira, instituições como a CEABRA, o Instituto Adolpho Bauer e tantas outras.

Como em geral acontecem com os Movimentos Sociais (apesar de alguns erros e debilidades), eles têm cumprido um papel pedagógico por excelência, aprendendo e ensinando novas lições, para quem participa, para quem observa, para quem se abre para os mais criativos significados da Democracia racial e da vida social do povo brasileiro.

Congregando com os que refletem e agem, lutando por mudanças de postura, unindo-se às ações afirmativas, considerando que o racismo não é uma questão restrita aos afro-brasileiros, nem tampouco a luta por direitos iguais deve ser uma preocupação somente das mulheres; pois é uma questão de todos os brasileiros que reconhecem que esta é uma nação multicultural, democrática e pluriétnica, que o planeta é um agrupado de tribos e povos distintos, mas que têm como objetivo principal sua sobrevivência e, mais ainda, o desenvolvimento sustentável do nosso planeta, de cada país, de cada família e de cada vida humana em nosso planeta terra.

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2 comentários, add yours.

Tomé da Silva

Acho ótimas estas iniciativas da Rede Brasil, mas acredito que o sucesso destes processos tem ser nas bases, principalmente na educação, tenho lido e visto iniciativas muito positivas de professores em escolas e ambientes de ensino, que trazem e praticam conteúdos afros de uma forma muito didática e não impositiva o que torna sociativa e integrativa nestas comunidades. Não saberia dizer como, mas acho a Rede Brasil Empreendedores entrar também em escolas.
Tomé da Silva
Fones 48-84825446 e 51-81084020

    Instituto IAB

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